Começo a descrição pela peça infantil "O Mágico de Oz", em cartaz no teatro das artes, no shopping da Gávea, RJ. Sáb e Dom às 17h
O original, um clássico de L. Frank Baum, datado de 1.900. Sucesso a mais de 100 anos, teve montagem cinematográfica em 1939, sendo esta a origem de todas as imagens de dorothy, o homem de lata, o leão covarde e o espantalho sem cérebro, que habitam nosso imaginário.
Para se ter ideia de sua importância o filme foi considerado o melhor filme familiar de todos os tempos pelo American Film Institute.
Acredito que a história seja de conhecimento de todos, portanto, não nos detenhamos aqui.
Para começar, um grande erro, ou falta de carinho com os atores. Procurei por diversas fontes, mas não encontrei, os nomes dos atores em relação aos personagens interpretados, nem no site oficial do teatro se apresenta tal nota, por isso, os chamarei pelos personagens.
Na promoção do espetáculo pelo jornal temos a informação: "Com clima de superprodução, 80 figurinos e até um cachorro de verdade em cena a adaptação do clássico conta a historia ... "
Pela Internet vemos: "O espetáculo, com direção de Gabriel Cortez, conta com uma grandiosa estrutura de produção e apresentará ao público ... ". Porém, já na primeira cena não é bem isso que se apresenta.
A peça começa com o ritmo alucinante, com o abrir veloz das cortinas, Dorothy resmungando algumas palavras e todos os atores entrando em cena e falando ao mesmo tempo, num clima confuso e de muito barulho.
Não sei se foi essa a intenção da direção, de repentinamente a música entrar, as cortinas abrirem e tudo começar como um raio, tentando algum propósito estético ou de surpresa.
Como se sabe que são crianças que ali estão assistindo, e em sua maioria ainda bem pequenos, essa velocidade parece não funcionar e atrapalha o inicio da peça, pois os atores já estão falando, e as mães estão começando a sentar seus filhos e filhas nas cadeiras, alguns fecham os amendoins, o pai tira o filho de cima da cabeça da irmã, e até aí já se foi metade da cena.
Mesmo assistindo ao início com atenção, apesar da cena do pai tentando tirar o filho de cima da irmã seja tentadora, não dá pra compreender muito bem o que acontece! Por todos os atores falarem ao mesmo tempo, não dá para entender o que está acontecendo, muito menos distinguir o que é falado, numa total falta de foco. A cena acontece inteira dessa forma, com muito barulho, muita movimentação, muitas interações, bastante suja em foco e som.
O que, se tratando de peça infantil é um pecado, já que a cena inicial é, ou deveria ser, a principal cena para as crianças começarem a prestar atenção e se interessarem no que se passa ali no palco. O que infelizmente não ocorreu.
A adaptação e direção, assinada por Gabriel C., é altamente aquém da possibilidade apresentada pela história, apesar de ter boas ideias, elas não aparecem, como por exemplo na primeira cena. Além de diversos outros momentos de muita falação, falta de foco e de ritmo em grande número de cenas e muitos altos e baixos.
A peça é permeada por momentos de musicais, com 13 canções que são interpretadas ao vivo.
Mas, infelizmente, os arranjos de tais canções se apresentam fracos, com 4 ou 5 elementos em ciclos com mixagem deficitária, em diversos momentos tendo um teclado mais alto que a voz dos atores e de outros elementos, não dando pra compreender o que é falado ou cantado.
Além da percepção abafada dos elementos, algumas cenas em que estão muitos atores estão desafinadas, variando diversas vezes.
*Esse ponto não é só do espetáculo em questão, diversas peças encenadas pelo Rj, que se aventuram em apresentar ao vivo ou em playback músicas próprias, pecam severamente nos arranjos e mixagens das faixas, tendo elementos gritantes enquanto o mais importante que é a voz do ator e o que ela transmite não é entendida nem com muito esforço. Particularmente não entendo o porque de continuar com esse viés se ele não funciona. Se a realidade financeira, que é comum ao teatro, não permite realizar tal atributo com satisfação, que se busquem alternativas! O que é o teatro se não a busca de alternativas? De possibilidades!! E é feio ver uma peça com uma cena musical que não se entende a metade do que é cantado.
Ainda na parte de voz. Somente a atriz principal usa microfone, não tendo mais nenhum ator ou atriz da peça com o mesmo equipamento. (?) Por que necessário somente a uma atriz?
O equipamento só retira o trabalho que poderia ser feito pela atriz e seu personagem, mas falaremos disso na parte dos atores.
As coreografias são apresentadas extremamente simples, com movimentos primários, que muitas vezes não dão nada a cena, nem traduzem o que é visto. Sem cumprir função nenhuma a não ser de dar fim e inicio as cenas, o que não é a melhor finalidade pra uma arte que se junta tão bem ao teatro.
Os figurinos, como dito nas promoções, são muitos! Em cada cena de cada personagem, todos os outros atores que não se fazem presentes se vestem com o tema do momento. Na hora do espantalho, por volta de 10 atores entram no palco com roupas relativas a ele, para as coreografias e músicas.
Os figurinos, em sua maioria, são bem desenhados e produzidos, dando um colorido especial às cenas que se sucedem, marcando bem os momentos de cada especial personagem. Apesar de decair em alguns pouquíssimos desenhos, o de mais efeito, sem dúvida, são os figurinos de Leão, atraindo a atenção das crianças. Os figurinos são assinados por Carol Barros e Clivia Cohen (Leão, Espantalho e Bruxa Boa). Assistentes Genésio Machado e Fernanda Visconti. Confecção de figurinos: Paulo Kandura
Os cenários são nulos, apenas alguns elementos cênicos são introduzidos à cena, como cercas na cena inicial e um biombo da casa do personagem 'vidente'. De resto projeções ao fundo dão a impressão de onde a cena ocorre, mudando de imagem de acordo com a mesma.
As projeção são altamente funcionais, não ameaçando as cenas, alternando de imagens estáticas dos ambientes (copiados do filme) para cenas gravadas, como da bruxa má ameaçando os outros personagens. Porém, um recurso que não se impõe, já que todas as cenas mostradas poderiam ser feitas no palco, sem maiores complicações. A função do cenário sendo projetado não pareceu ser a mais apropriada, já que o fundo não vai de ponta a ponta da rotunda, deixando espaços grandes ao lado. Em diversos momentos a iluminação atrapalhou a projeção e vice versa.
A iluminação, sem nenhuma explicação aparente, é nula! Em muitas cenas, apenas 3 luzes como 'geral' ficam acesas, uma verde ou vermelha é jogada em diagonal dispersamente, quando a bruxa entra com fumaça ou em outros momentos dispersos. Iluminação sem diferenciar ambientes, sentimentos ou estados. Em outro momento de coreografia, algumas luzes coloridas são jogadas na tela de projeção(!), sem o menor sentido, e com tonalidades de mau gosto.
Em diversos momentos, como já dito, as projeções e iluminação não se entenderam.
Em relação aos atores, que é o mais importante e primordial do teatro.
Percebe-se claramente a dedicação da maioria dos atores a atrizes para realizar bem seus papeis, não só os 5 principais mas como todos os demais.
O espantalho brinca bem no inicio com o fato de não conseguir ficar em pé, apesar de não usar mais esse elemento no decorrer da peça de forma consistente, faz bem o papel de ser o mais próximo a dorothy, e não ter cérebro.
O homem de lata, 'por ser de lata', a fantasia ser de material metálico, talvez tenha impossibilitado o aproveitamento melhor do personagem, antes mesmo de ele aparecer, o que pode ter lhe tirado um pouco de vida e brilho. Nada que denegrisse o que se apresenta, pois o que se vê é algo crivel.
O leão, talvez seja o personagem que mais se achou em todo o espetáculo, o que melhor desenvolveu seu personagem, voz corpo e atitude... Demonstrou força em sua cena inicial, quebrando prontamente pra fraqueza, fazendo todas as crianças prestarem total atenção em sua cena e depois fazendo-as cair em risos com seu medo e delicadeza. Um dos destaques.
Dorothty.
Protagonizada pela atriz Carla Diaz, que em cena parece ter quase metade de sua idade, 18 anos, cai em uma armadilha fatal: tentar reproduzir fielmente o que se mostra no filme. Gerando um resultado sem expressividade e verdade, portanto, não crivel, plastificado.
O microfone usado além de não ajudar, parece atrapalhar, já que toda a partitura vocal é apresentada sem profundidade, quase previsível, adaptado para o mic.
A peça termina com o intuito muito claro de passar a mensagem de "Não há lugar melhor que a nossa casa", o que é mais do que válido. Porém, se tratando da peça que é, tentar induzir só a essa percepção é muito menos do que o possível, pois valores como ir atrás do que se deseja, amizades, coragem, amor, sentimentos, esperança, são muito abertos ao trabalho em toda a história. Sendo um pecado tentar induzir somente uma leitura final tão pobre da peça.
No contexto geral, de espectador, a peça é atraente, apesar de não conseguir prender a atenção das crianças em determinadas cenas. Desde a já consagrada história até o cãozinho totó que permanece imóvel e completamente educado durante toda a peça, sem ao menos se exaltar.
A peça fica em cartaz até o dia 31 de Abril no teatro das artes, no shopping da Gávea, RJ.
Sáb e Dom às 17h . R$:40,00 (Meia R$:20,00)